A IA já está nos seus processos. A questão é onde.
Enquanto muitas empresas ainda discutem se e como vão adotar inteligência artificial, parte das equipes já experimenta a tecnologia no cotidiano. Um analista resume um contrato no ChatGPT. Alguém do RH pede a uma IA que reescreva a descrição de uma vaga. Um gestor insere dados de resultados do trimestre para ganhar tempo na apresentação.
Esses usos nem sempre passam por avaliação de TI, jurídico ou segurança da informação. Em alguns casos, a liderança sequer sabe quais ferramentas estão sendo utilizadas ou que informações são compartilhadas com elas.
Esse fenômeno tem nome: Shadow AI, ou IA na sombra. Segundo o Work Trend Index 2024, da Microsoft e do LinkedIn, 78% dos profissionais que utilizam IA no trabalho recorrem a ferramentas próprias. O indicador não significa, por si só, que todo esse uso seja proibido ou desconhecido pela empresa, mas mostra como a adoção individual pode avançar mais rapidamente que as iniciativas organizacionais.
Neste artigo, explicamos o que é Shadow AI, por que ela surge, quais riscos traz e, principalmente, como mapear esse cenário para orientar uma estratégia de IA conectada aos processos reais da empresa.
O que é Shadow AI e por que ela é diferente da Shadow IT
Shadow AI é o uso de ferramentas, modelos ou aplicações de inteligência artificial em atividades da empresa sem autorização, visibilidade ou acompanhamento adequados das áreas responsáveis. Entram nessa conta chatbots públicos, extensões de navegador, copilotos de código, agentes de automação e até APIs contratadas diretamente por uma área de negócio. O conceito é herdeiro da Shadow IT, o uso de softwares e serviços fora dos processos de homologação. Mas há duas diferenças importantes:
- O dado pode ser processado por terceiros. Ao inserir informações em uma ferramenta de IA, a empresa pode perder visibilidade sobre armazenamento, retenção, compartilhamento e, conforme o serviço e suas configurações, eventual utilização dos dados para treinamento de modelos.
- A IA também produz conteúdo. Além do risco relacionado aos dados enviados, existe o risco das respostas geradas: informações incorretas ou incompletas podem ser incorporadas a relatórios, propostas e decisões sem a revisão necessária.
Por isso, Shadow AI não é apenas um tema de segurança da informação. Também é um tema de processos: a tecnologia pode alterar como o trabalho é realizado e como decisões são tomadas sem que essa mudança apareça nos fluxos oficiais.
Por que as equipes recorrem à IA por conta própria
É tentador tratar a Shadow AI apenas como indisciplina. Mas o uso informal também pode revelar uma distância entre as necessidades das equipes e os recursos, orientações e condições oferecidos pela organização.
Para o professor Chris Jackson, da UNSW Business School, a Shadow AI deve ser compreendida também como um desafio organizacional, e não somente como um desvio individual. Profissionais podem recorrer à tecnologia para realizar suas atividades sem dispor de parâmetros claros sobre o uso responsável.
Três fatores ajudam a explicar esse cenário:
- A adoção da tecnologia avança rapidamente. Segundo o Eurostat, 20% das empresas da União Europeia com dez ou mais empregados utilizavam tecnologias de IA em 2025, ante 13,5% em 2024. Esses números medem utilização empresarial, não a proporção de ferramentas formalmente autorizadas.
- Faltam orientações claras. A pesquisa global da KPMG e da Universidade de Melbourne (2025) aponta lacunas na existência e na comunicação de diretrizes organizacionais para o uso de IA. Ter acesso à ferramenta não significa saber quais dados podem ser inseridos, quais tarefas exigem revisão e quem responde pelos resultados.
- Os processos internos podem ser lentos. Quando uma necessidade operacional não encontra uma alternativa aprovada em tempo hábil, algumas equipes recorrem a soluções por conta própria.
A falta de transparência agrava o problema. Na pesquisa da KPMG e da Universidade de Melbourne, 57% dos trabalhadores relataram comportamentos pouco transparentes relacionados ao uso de IA, incluindo ocultar a utilização ou apresentar conteúdo gerado pela tecnologia como próprio. Quando o uso não é discutido abertamente, a empresa perde a oportunidade de identificar riscos e aprender com práticas que surgiram nas equipes.
Os riscos de uma IA que ninguém enxerga
O problema central da Shadow AI não é a ferramenta em si. É a falta de visibilidade: a empresa pode não saber qual IA foi utilizada, quais dados foram compartilhados e se uma resposta influenciou uma decisão. A partir daí, os riscos se desdobram em quatro frentes.
1. Exposição de informações sensíveis
Dados de clientes, contratos, código-fonte e números financeiros podem ser compartilhados com serviços externos por um simples copiar e colar. Em 2023, a Samsung registrou incidentes envolvendo funcionários que inseriram informações sensíveis no ChatGPT. Segundo o Cost of a Data Breach Report 2025, da IBM, uma em cada cinco organizações analisadas relatou violações de dados relacionadas à Shadow AI. Entre organizações com níveis elevados desse uso, o custo médio das violações foi US$ 670 mil superior ao observado naquelas com níveis baixos ou inexistentes. A pesquisa analisou organizações que já haviam sofrido violações, não todas as empresas do mercado.
2. Decisões apoiadas em respostas erradas
Respostas de IA podem ser bem escritas e convincentes mesmo quando contêm erros. Em um experimento com 758 consultores do BCG, pesquisadores ligados à Harvard Business School observaram que, em uma tarefa fora das capacidades avaliadas da IA, participantes que utilizaram a tecnologia tiveram probabilidade 19 pontos percentuais menor de chegar à resposta correta. O resultado não significa que a IA prejudique qualquer atividade, mas reforça a importância de compreender seus limites e definir etapas de revisão humana.
3. Conformidade e privacidade
No Brasil, o uso de dados pessoais em ferramentas não homologadas pode criar riscos de descumprimento da LGPD, inclusive quanto à finalidade, à segurança, à transparência e à responsabilização dos agentes de tratamento. Em operações internacionais, também podem existir obrigações decorrentes do RGPD europeu e, conforme o caso, do AI Act. As exigências aplicáveis dependem do contexto, dos dados e da forma de utilização da tecnologia.
4. Processos que mudam sem que ninguém perceba
Este é o risco menos discutido e, talvez, o mais estratégico. Quando uma etapa de análise, triagem ou redação passa a ser feita com IA de forma informal, o processo real deixa de corresponder ao processo documentado. Os indicadores podem continuar os mesmos, mas a forma de produzir os resultados mudou. A liderança passa a avaliar um fluxo que já não descreve completamente a operação.
O desafio da governança aparece também nos dados da IBM: 63% das organizações analisadas não tinham uma política de governança de IA implementada ou ainda estavam desenvolvendo suas diretrizes. O percentual não demonstra que a ausência de política causou cada incidente, mas evidencia uma lacuna relevante de gestão.
Proibir, por si só, não resolve
Diante desses riscos, bloquear ferramentas pode ser uma medida necessária, sobretudo em atividades que envolvem informações sensíveis ou decisões de alto impacto. Mas a proibição isolada, sem alternativas viáveis e orientações claras, não necessariamente elimina o uso informal: ela também pode dificultar sua identificação.
A experiência de organizações que enfrentaram incidentes com IA mostra a importância de combinar controles técnicos, ferramentas adequadas, comunicação e capacitação. A Shadow AI tem duas faces: ao mesmo tempo que expõe riscos, pode indicar atividades nas quais as equipes enxergam oportunidades de ganho de produtividade.
A pergunta, portanto, não deve ser apenas “como impedir?”, mas também “onde a IA já está influenciando nossos processos e decisões?”. A partir dessa compreensão, torna-se possível decidir quais usos restringir, quais orientar, quais formalizar e quais merecem ser desenvolvidos com segurança.
O primeiro passo: enxergar o que já acontece
Antes de escolher ferramentas ou escrever políticas, a empresa precisa compreender como o trabalho acontece hoje, e não apenas como deveria acontecer no papel. Esse é o objetivo de um diagnóstico AS-IS.
Aplicado à IA, um diagnóstico deve responder a perguntas como:
- Em quais processos e etapas a IA já participa, oficialmente ou não?
- Que tipos de informação são compartilhados com essas ferramentas e sob quais condições?
- Quais decisões de negócio recebem influência de respostas de IA e que revisões são realizadas?
- Quais usos apresentam riscos relevantes e quais indicam oportunidades de melhoria?
Responder a essas perguntas exige mais do que listar ferramentas instaladas. Entrevistas com equipes, observação de atividades, análise de fluxos e identificação de pontos de decisão ajudam a revelar onde o trabalho real já se afastou do processo documentado. Para que esse levantamento funcione, também é importante criar condições para que as pessoas descrevam suas práticas sem receio de punição automática.
O resultado é um mapa que apoia segurança e estratégia: identifica exposições, dependências e oportunidades, sem presumir que todo uso informal deva ser ampliado. Cada caso precisa ser avaliado segundo seu valor para o negócio, a sensibilidade dos dados, os riscos e a viabilidade de governança.
Da sombra à estratégia
A Shadow AI indica que a demanda por inteligência artificial pode surgir antes de uma estratégia formal. Ignorar esse movimento reduz a visibilidade sobre dados e decisões. Responder apenas com bloqueios pode deixar de enfrentar as necessidades que motivaram o uso. O caminho é compreender o cenário e definir critérios para lidar com ele.
Uma estratégia de IA consistente não começa necessariamente pela escolha de uma ferramenta. Começa pelo entendimento de como o trabalho acontece, de quais problemas precisam ser resolvidos e de quais riscos a organização está preparada para administrar.
Na Tuia, esse entendimento orienta o diagnóstico AS-IS e o mapeamento de processos. A partir da investigação das rotinas, dos pontos de decisão e das necessidades das equipes, ajudamos a identificar onde a IA já participa da operação, quais usos exigem atenção e quais oportunidades merecem avaliação. Esse retrato contribui para construir uma estratégia de IA conectada ao negócio, com prioridades, responsabilidades e critérios de uso mais claros.
Quer entender onde a IA já está presente nos processos da sua empresa? Fale com a Tuia.
Referências
- Microsoft e LinkedIn — Work Trend Index 2024
- Eurostat — Uso de IA em empresas, 2025
- KPMG e University of Melbourne — Global Study 2025
- IBM — Cost of a Data Breach 2025
- Harvard Business School / BCG — estudo com consultores
- UNSW BusinessThink — Why Boards Should Be Nervous About the Rise of Shadow AI
- Wiley — From Shadow IT to Shadow AI: Threats, Risks and Opportunities for Organizations
- Taylor & Francis — Shadow User Innovation: Governing Covert Generative-AI Use for Dynamic-Capability Renewal
- Springer — Shadow AI: Cyber Security Implications, Opportunities and Challenges in the Unseen Frontier
- UNISC — Governança e Inteligência Artificial Generativa: Desafios e Riscos da Shadow AI no Ambiente Empresarial